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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 26 de julho de 2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
As gentes da Raia
A região transmontana é muitas vezes objecto de estudo, compete a todos preservar e divulgar a memória social e cultural da " nossa gente", deixo aqui um pequeno fragmento de um projecto de estágio em Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento, sobre a memória, identidade e desenvolvimento rural da freguesia de Quirás, da autoria de Cláudia Santos.
" A freguesia de Quirás, situa-se em pleno Parque Natural de Montesinho, em Trás-os-Montes, a norte de Portugal, concelho de Vinhais e Distrito de Bragança. É composta por quatro aldeias, Quirás, Edroso, Vilarinho de Lomba e Cisterna, que perfazem 27,19 km². Segundo os Censos de 2001 possuía 225 habitantes, sendo a sua densidade populacional de 8,1 hab/km². Em Setembro de 2008, altura em que entro no terreno, este já não foi o número de pessoas que encontrei, tendo diminuído em cerca de 10 pontos percentuais.
...
" Quando decidi avançar para esta investigação sobre a memória, a identidade e o desenvolvimento rural, tive de assentar amarras na aldeia por seis meses.
Durante os primeiros quatro meses, vivi quotidianamente na aldeia da Cisterna, no edifício do antigo Posto da Guarda-Fiscal, local para o qual recaía o projecto de desenvolvimento rural, apresentado na Câmara Municipal de Vinhais.
Os restantes dois meses, e porque no antigo posto da Guarda-fiscal tiveram início as obras, fui viver para a aldeia de Vilarinho de Lomba.".
...
"Nesta freguesia de fronteira com o país vizinho, Espanha, paredes meias com o concelho de Chaves, pude encontrar uma população de contrabandistas: as gentes da raia.
Esta comunidade possui uma identidade própria, uma memória social e cultural.
A memória social e cultural constata-se pela utilização que lhe querem dar (registo das suas histórias de vida) e os locais fazem, nas suas conversas quotidianas, inúmeras referências ao seu passado (época contrabando) comparando-o com o presente e futuro da sua aldeia.
A raia separa e limita dois países, aldeias e população. Quirás é uma das freguesias portuguesa que se encontra neste limite, na região de Trás-os-Montes, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança. Encontra-se no Parque Natural do Montesinho, de altitude máxima de 1340 m (Fonte: IGP 5 ) na denominada região “Terra Fria”6. É uma freguesia de limites e de raia, porque, para além dos limites com o país vizinho, a norte da freguesia, tem a oeste fronteira com concelho de Chaves, distrito de Vila Real.
Assim, em termos demográficos, o que encontramos nestas aldeias é uma população envelhecida, que vive das suas parcas reformas (reformas sociais e reformas de trabalhadores agrícolas) e da ajuda dos seus filhos emigrados. Consequentemente, encontramos os terrenos abandonados; como declaram os locais: “e isto tudo que se vê de giestas, tudo andava centeio, andava aqui uma máquina oito ou dez dias a cortar” (Sr. Albino, História de Vida, Abril 2009); sem grandes produções agrícolas; a produção pecuária quase já não existe, são cada vez menos as pessoas que ainda fazem a matança do porco; o parque habitacional destruído e abandonado...
As razões apontadas pelos locais para tal prendem-se principalmente, com o facto de, já não haver gente (como os locais amiúde referem); e com o declínio das actividades de contrabando que geravam os recursos financeiros usados na organização das festas. Quando interrogados sobre esta questão dizem: “não havia dia nenhum nomeado sem festa na aldeia, era todos os fins-de-semana, era assim …agora já não há gente, só restam os velhos…” (Sr. Zé, História de Vida em Abril 2009).
As festas ficaram, nos dias de hoje, restritas ao mês de Agosto, altura em que celebram as romarias ao Santo Padroeiro. Em Vilarinho de Lomba, dia 15 e 16 de Agosto, em honra de Stª Luzia e Nª Srª da Assunção, respectivamente. Na Cisterna, a 6 de Agosto em honra de S. Salvador. Nesta altura podemos ver as aldeias com mais gente, que se dividem em emigrantes de férias na aldeia de onde são naturais, e vizinhos (quer emigrantes quer residentes das aldeias mais próximas). Como pude verificar no terreno e como os próprios residentes confirmam, são cada vez em menor número e com menos frequência os que vêm pelas épocas de Natal e da Páscoa trazendo também nestes períodos a alegria e o convívio aos habitantes de Vilarinho de Lomba e da Cisterna. Pela quadra natalícia e porque muitos emigrantes escolhem esta época para um período curto de férias, fazem a festa dos Reis. Em Vilarinho de Lomba, cantam os Reis, recolhem o fumeiro recentemente feito, e em conjunto, comem-no.
Rivalidades:
" A minha estadia no terreno fez-me pensar nas relações de vizinhança e no conflito presente entre eles da mesma aldeia e entre eles e as aldeias vizinhas. O que pretendo dizer com isto é que, sendo eles vizinhos num grupo tão restrito, partilhando interesses comuns, ajudando-se mutuamente em tarefas, como por exemplo a matança do porco a realização de fumeiro, o conflito, a disputa e as rivalidades são o que mais se notam nestas duas pequenas comunidades. Frequentemente ouvia: o meu fumeiro é melhor; o meu vinho é melhor e outras expressões em que o que o vizinho faz, diz ou sabe, é sempre pouco ou nada.
Quando em confronto com outras aldeias para eles, a sua aldeia é a melhor de todas, é a mais simpática, a mais hospitaleira, a mais rica, a mais solidária. Contudo, no quotidiano isso passa de forma quase contrária ao que afirmam. Eles próprios têm consciência desta ambiguidade, como afirmou um habitante da Cisterna, num dos funerais na aldeia quando o padre manda os fiéis se cumprimentarem, diz “lá dentro beijam-se, cá fora batem-se” (Diário de Campo, Novembro 2008).
A aldeia da Cisterna é dividida por dois bairros, de um lado o mais próximo de Espanha, O Bairro Galego, do outro o Bairro Português. Cada um destes bairros tem um forno. Ou seja, existe o forno da aldeia que está no Bairro Português, mas os do Bairro Galego mandaram fazer um para eles. Então, diziam-me o Sr. Rui Fernandes, habitante do Bairro Galego, “nós podemos usar os dois fornos, ao contrário deles que só podem usar o que está no bairro deles, no bairro de cima (Galego), nós somos diferentes, somos melhores, não somos coscuvilheiros” (Diário de Campo, Novembro 2008)."
Contrabando:
"O Ti Zé é solteiro, tem 78 anos de idade, é um dos mais velhos de seis irmãos, filho de contrabandista como afirma sobre o seu progenitor “o meu pai na raia, ui Jesus, nunca tinha medo” e “não houve guarda nenhum que o agarrasse na raia, nenhum, nenhum, nenhum…”, “era todos os dias a passar gado” (Sr. Zé, História de Vida em Abril 2009).
Desde garoto (mais ou menos 4 anos), começou a trabalhar numa casa e fê-lo durante dezassete anos. Não se lembra da primeira vez que foi ao trelo, foram tantas as vezes que o fez, que não recorda a primeira. Lembra-se que esfolou as costas de tanto carregar fardos, sempre com mais de vinte quilos, para tirar o dinheiro que não conseguia com a actividade agrícola, como diz:
Quando nessas noites lhes apareciam os seus directos inimigos da actividade, os Guardas-fiscais ou a Guarda Civil, fugiam e escondiam o trelo e depois voltavam, mais tarde, ao sítio para tentar reaver o produto. Acontecia, por vezes, que o produto era apreendido, principalmente animais.
Certo dia em que uma égua foi apreendida e levada para o Posto, para seguidamente ir a leilão, prática corrente das autoridades policiais, entre eles combinaram resgatar o animal e um dos indivíduos foi buscá-la às cortes do Posto enquanto os outros vigiavam os polícias.
Esta e muitas outras histórias relata o Sr. Zé sobre os anos do trelo em que faziam de tudo para não perder o género, termo usado por eles para se referirem a mercadoria.
Nesta investigação tive como base a negociação e a história de vida de cada indivíduo relativamente ao contrabando e tentei ao longo de todas elas perceber se todos estariam de acordo com a pergunta: “Podemos dizer que esta terra era uma terra de contrabandistas?” todos responderam afirmativamente, dizendo “todos fomos ao trelo, homens, mulheres, todos…” (Sr. Zé, Sr. Ramiro, Sr. Américo, Histórias de vida, 2008 )
Pela calada da noite, passaram por esta fronteira de forma ilegal, sem lugar ao pagamento de qualquer tipo de taxas, café em grão, marcas Sical, Chinês e Farruco, peles de animais, animais, plástico em grão, lingotes, eixos de camiões, bonecos, alambiques. Os primeiros três produtos (café, peles de animais e animais) em maior número e com mais frequência.
Assim, todas as noites iam ao contrabando, e algumas delas mais do que uma vez. Se o percurso permitisse faziam-no o máximo de vezes por noite, cada ida era uma jorna. Na família iam todos os que pudessem com o fardo, maridos, mulheres e filhos.
Possuíam algumas terras, o gado, mas era ao contrabando que iam buscar o dinheiro, para as alfaias, para novos terrenos, roupas, calçado, e para fazer face a outras necessidades do quotidiano, como afirma um vizinho “na primeira vez que fui, comprei ao galego umas botas” (Sr. Abel, Março 2008).
Quanto à atitude dos guardas-fiscais, quando perguntava se alguns deles tinham sido detidos pela prática do contrabando, muitos respondiam que não, apenas tinham de levar a carga para o Posto e dali vinham para casa “a carga ficava para eles” (Ramiro, Março 2008). Todos, quer contrabandistas quer guardas-fiscais, admitem que poderia haver alguma cumplicidade entre os comerciantes e os próprios guardas-fiscais, embora o medo persistisse pela noite durante a caminhada até Espanha.
Agradecimentos: à Autora Cláudia Santos pela disponibilidade sem reservas em colaborar com o blogue.
" A freguesia de Quirás, situa-se em pleno Parque Natural de Montesinho, em Trás-os-Montes, a norte de Portugal, concelho de Vinhais e Distrito de Bragança. É composta por quatro aldeias, Quirás, Edroso, Vilarinho de Lomba e Cisterna, que perfazem 27,19 km². Segundo os Censos de 2001 possuía 225 habitantes, sendo a sua densidade populacional de 8,1 hab/km². Em Setembro de 2008, altura em que entro no terreno, este já não foi o número de pessoas que encontrei, tendo diminuído em cerca de 10 pontos percentuais.
...
" Quando decidi avançar para esta investigação sobre a memória, a identidade e o desenvolvimento rural, tive de assentar amarras na aldeia por seis meses.
Durante os primeiros quatro meses, vivi quotidianamente na aldeia da Cisterna, no edifício do antigo Posto da Guarda-Fiscal, local para o qual recaía o projecto de desenvolvimento rural, apresentado na Câmara Municipal de Vinhais.
Os restantes dois meses, e porque no antigo posto da Guarda-fiscal tiveram início as obras, fui viver para a aldeia de Vilarinho de Lomba.".
...
"Nesta freguesia de fronteira com o país vizinho, Espanha, paredes meias com o concelho de Chaves, pude encontrar uma população de contrabandistas: as gentes da raia.
Esta comunidade possui uma identidade própria, uma memória social e cultural.
A memória social e cultural constata-se pela utilização que lhe querem dar (registo das suas histórias de vida) e os locais fazem, nas suas conversas quotidianas, inúmeras referências ao seu passado (época contrabando) comparando-o com o presente e futuro da sua aldeia.
A raia separa e limita dois países, aldeias e população. Quirás é uma das freguesias portuguesa que se encontra neste limite, na região de Trás-os-Montes, no concelho de Vinhais, distrito de Bragança. Encontra-se no Parque Natural do Montesinho, de altitude máxima de 1340 m (Fonte: IGP 5 ) na denominada região “Terra Fria”6. É uma freguesia de limites e de raia, porque, para além dos limites com o país vizinho, a norte da freguesia, tem a oeste fronteira com concelho de Chaves, distrito de Vila Real.
Assim, em termos demográficos, o que encontramos nestas aldeias é uma população envelhecida, que vive das suas parcas reformas (reformas sociais e reformas de trabalhadores agrícolas) e da ajuda dos seus filhos emigrados. Consequentemente, encontramos os terrenos abandonados; como declaram os locais: “e isto tudo que se vê de giestas, tudo andava centeio, andava aqui uma máquina oito ou dez dias a cortar” (Sr. Albino, História de Vida, Abril 2009); sem grandes produções agrícolas; a produção pecuária quase já não existe, são cada vez menos as pessoas que ainda fazem a matança do porco; o parque habitacional destruído e abandonado...
As razões apontadas pelos locais para tal prendem-se principalmente, com o facto de, já não haver gente (como os locais amiúde referem); e com o declínio das actividades de contrabando que geravam os recursos financeiros usados na organização das festas. Quando interrogados sobre esta questão dizem: “não havia dia nenhum nomeado sem festa na aldeia, era todos os fins-de-semana, era assim …agora já não há gente, só restam os velhos…” (Sr. Zé, História de Vida em Abril 2009).
As festas ficaram, nos dias de hoje, restritas ao mês de Agosto, altura em que celebram as romarias ao Santo Padroeiro. Em Vilarinho de Lomba, dia 15 e 16 de Agosto, em honra de Stª Luzia e Nª Srª da Assunção, respectivamente. Na Cisterna, a 6 de Agosto em honra de S. Salvador. Nesta altura podemos ver as aldeias com mais gente, que se dividem em emigrantes de férias na aldeia de onde são naturais, e vizinhos (quer emigrantes quer residentes das aldeias mais próximas). Como pude verificar no terreno e como os próprios residentes confirmam, são cada vez em menor número e com menos frequência os que vêm pelas épocas de Natal e da Páscoa trazendo também nestes períodos a alegria e o convívio aos habitantes de Vilarinho de Lomba e da Cisterna. Pela quadra natalícia e porque muitos emigrantes escolhem esta época para um período curto de férias, fazem a festa dos Reis. Em Vilarinho de Lomba, cantam os Reis, recolhem o fumeiro recentemente feito, e em conjunto, comem-no.
Rivalidades:
" A minha estadia no terreno fez-me pensar nas relações de vizinhança e no conflito presente entre eles da mesma aldeia e entre eles e as aldeias vizinhas. O que pretendo dizer com isto é que, sendo eles vizinhos num grupo tão restrito, partilhando interesses comuns, ajudando-se mutuamente em tarefas, como por exemplo a matança do porco a realização de fumeiro, o conflito, a disputa e as rivalidades são o que mais se notam nestas duas pequenas comunidades. Frequentemente ouvia: o meu fumeiro é melhor; o meu vinho é melhor e outras expressões em que o que o vizinho faz, diz ou sabe, é sempre pouco ou nada.
Quando em confronto com outras aldeias para eles, a sua aldeia é a melhor de todas, é a mais simpática, a mais hospitaleira, a mais rica, a mais solidária. Contudo, no quotidiano isso passa de forma quase contrária ao que afirmam. Eles próprios têm consciência desta ambiguidade, como afirmou um habitante da Cisterna, num dos funerais na aldeia quando o padre manda os fiéis se cumprimentarem, diz “lá dentro beijam-se, cá fora batem-se” (Diário de Campo, Novembro 2008).
A aldeia da Cisterna é dividida por dois bairros, de um lado o mais próximo de Espanha, O Bairro Galego, do outro o Bairro Português. Cada um destes bairros tem um forno. Ou seja, existe o forno da aldeia que está no Bairro Português, mas os do Bairro Galego mandaram fazer um para eles. Então, diziam-me o Sr. Rui Fernandes, habitante do Bairro Galego, “nós podemos usar os dois fornos, ao contrário deles que só podem usar o que está no bairro deles, no bairro de cima (Galego), nós somos diferentes, somos melhores, não somos coscuvilheiros” (Diário de Campo, Novembro 2008)."
Contrabando:
"O Ti Zé é solteiro, tem 78 anos de idade, é um dos mais velhos de seis irmãos, filho de contrabandista como afirma sobre o seu progenitor “o meu pai na raia, ui Jesus, nunca tinha medo” e “não houve guarda nenhum que o agarrasse na raia, nenhum, nenhum, nenhum…”, “era todos os dias a passar gado” (Sr. Zé, História de Vida em Abril 2009).
Desde garoto (mais ou menos 4 anos), começou a trabalhar numa casa e fê-lo durante dezassete anos. Não se lembra da primeira vez que foi ao trelo, foram tantas as vezes que o fez, que não recorda a primeira. Lembra-se que esfolou as costas de tanto carregar fardos, sempre com mais de vinte quilos, para tirar o dinheiro que não conseguia com a actividade agrícola, como diz:
“A mim chegou-me a cair a pele dos ombros, quatro noites e quatro dias sem
dormir nada, depois andava aqui, ao meio dia, na lavoura a lavrar, tive de mandar
parar o condutor da máquina e tive de me sentar para dormir! Não aguentava, não
aguentava… (…) Aqui, não havia onde o tirar (dinheiro), a tirar 50$00, não havia,
os pais não tinham, ó pois comecei a querer andar com os rapazes… Dinheiro não
havia, a gente fazia a colheita mal pra comer, a gente vendia uns bichinhos, não
havia mais nada” (Sr. Zé, História de Vida em Abril 2009).
Certo dia em que uma égua foi apreendida e levada para o Posto, para seguidamente ir a leilão, prática corrente das autoridades policiais, entre eles combinaram resgatar o animal e um dos indivíduos foi buscá-la às cortes do Posto enquanto os outros vigiavam os polícias.
Esta e muitas outras histórias relata o Sr. Zé sobre os anos do trelo em que faziam de tudo para não perder o género, termo usado por eles para se referirem a mercadoria.
Nesta investigação tive como base a negociação e a história de vida de cada indivíduo relativamente ao contrabando e tentei ao longo de todas elas perceber se todos estariam de acordo com a pergunta: “Podemos dizer que esta terra era uma terra de contrabandistas?” todos responderam afirmativamente, dizendo “todos fomos ao trelo, homens, mulheres, todos…” (Sr. Zé, Sr. Ramiro, Sr. Américo, Histórias de vida, 2008 )
Pela calada da noite, passaram por esta fronteira de forma ilegal, sem lugar ao pagamento de qualquer tipo de taxas, café em grão, marcas Sical, Chinês e Farruco, peles de animais, animais, plástico em grão, lingotes, eixos de camiões, bonecos, alambiques. Os primeiros três produtos (café, peles de animais e animais) em maior número e com mais frequência.
Assim, todas as noites iam ao contrabando, e algumas delas mais do que uma vez. Se o percurso permitisse faziam-no o máximo de vezes por noite, cada ida era uma jorna. Na família iam todos os que pudessem com o fardo, maridos, mulheres e filhos.
Possuíam algumas terras, o gado, mas era ao contrabando que iam buscar o dinheiro, para as alfaias, para novos terrenos, roupas, calçado, e para fazer face a outras necessidades do quotidiano, como afirma um vizinho “na primeira vez que fui, comprei ao galego umas botas” (Sr. Abel, Março 2008).
Quanto à atitude dos guardas-fiscais, quando perguntava se alguns deles tinham sido detidos pela prática do contrabando, muitos respondiam que não, apenas tinham de levar a carga para o Posto e dali vinham para casa “a carga ficava para eles” (Ramiro, Março 2008). Todos, quer contrabandistas quer guardas-fiscais, admitem que poderia haver alguma cumplicidade entre os comerciantes e os próprios guardas-fiscais, embora o medo persistisse pela noite durante a caminhada até Espanha.
Agradecimentos: à Autora Cláudia Santos pela disponibilidade sem reservas em colaborar com o blogue.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Edroso na Revista ADRA
Extraído do documento publicado na Revista Adra- Revista do Museo do Pobo Galego
Autor: Sacramento, Octávio. 2007. ""Consumo contido: práticas aquisitivas no contexto do comércio ambulante, em meio rural"", ADRA: Revista do Museo do Pobo Galego, 2: 23 - 37.
Para ler o texto completo aceder a http://www.museodopobo.es/revista-adra.php
CONSUMO CONTIDO: PRÁTICAS AQUISITIVAS NO CONTEXTO DO COMÉRCIO AMBULANTE, EM MEIO RURAL
...
3 As compras ficavam quase sempre a cargo das mulheres. Quando por qualquer motivo não podiam deslocar-se à taberna, geralmente mandavam um filho ainda pequeno fazer o recado. Os homens, por seu lado, frequentavam a taberna sobretudo como espaço de lazer, um espaço caracterizado por um ambiente de forte homossociabilidade pouco receptivo à presença feminina.
4 Ainda hoje as pessoas mais idosas têm memória do peixeiro que trazia o peixe (sobretudo sardinhas) coberto com sal, acondicionado em caixotes de madeira inseridos em alforges transportados por burros. Por volta da década de 60, o peixe começou a ser transportado em pequenas camionetas e a ser preservado mediante o recurso ao gelo. Mais recentemente, o carro do peixe, como é conhecido na aldeia, passou a dispor de uma câmara frigorífica para assegurar a conservação do pescado.
E por fim, em tempos de crise não posso deixar de publicar um pouco mais do texto:
" ... além dos factores de natureza mais económica, a grande importância que, culturalmente, ainda é atribuída à poupança, à não ostentação e à moderação/sustentabilidade do nível de vida; valores dos quais decorre uma forte resistência ideológica à solicitação de crédito e às compras a prestações: Eu nunca gostei de ficar a dever, nem aos bancos, nem a ninguém. Sempre gostei de dormir descansado e de não ter de ficar a dever nada a ninguém! Uma pessoa só deve ter aquilo que pode comprar! (homem, 72 anos). É até bastante comum a expressão quem não tem dinheiro, não tem vícios, que funciona para os actores sociais como mais um sinalizador valorativo da importância de adoptarem padrões de consumo e um nível de vida condizentes com as suas reais possibilidades.
A aversão social ao endividamento e o manifesto apreço pela poupança e pela sobriedade no consumo parecem representar uma espécie de ethos normativo da comunidade, para o qual terão contribuído
experiências de um passado não muito distante de manifesta escassez e privação..."
Agradecimento ao autor pelo envio do estudo.
Autor: Sacramento, Octávio. 2007. ""Consumo contido: práticas aquisitivas no contexto do comércio ambulante, em meio rural"", ADRA: Revista do Museo do Pobo Galego, 2: 23 - 37.
Para ler o texto completo aceder a http://www.museodopobo.es/revista-adra.php
CONSUMO CONTIDO: PRÁTICAS AQUISITIVAS NO CONTEXTO DO COMÉRCIO AMBULANTE, EM MEIO RURAL
...
" Significa apenas e só uma coisa, que parece ser mais ou menos consensual: a cidade é o nicho ecológico por excelência do consumismo.
Não é por acaso, nem mesmo de estranhar, que a pesquisa social sobre este fenómeno tenha vindo a privilegiar o espaço urbano, relegando para segundo plano os contextos de características mais marcadamente rurais. Este é o principal motivo que me leva a desenvolver aqui algumas considerações sobre as práticas e dinâmicas sociais de consumo num meio que ainda conserva evidentes traços de ruralidade – Edroso de Lomba–, uma pequena aldeia portuguesa da raia nordeste-transmontana, com 87 habitantes, situada no concelho de Vinhais, distrito de Bragança.
...
À excepção de alguns dos principais bens agro-alimentares (ex. batatas, legumes e fumeiro) produzidos essencialmente para auto-consumo, a maioria dos restantes bens consumidos nesta comunidade, tal como acontece em outras da região, são comprados aos vendedores ambulantes que aí se deslocam.
...
O início da década de 90 constitui um ponto de viragem na organização da estrutura e dos processos sociais de consumo em Edroso de Lomba. É por esta altura que, em virtude do progressivo declínio populacional, são encerradas as duas tabernas que durante várias décadas se afirmaram como os espaços públicos centrais de sociabilidade e de consumo da comunidade. Era aí que as pessoas se encontravam nos seus tempos de “não-trabalho”, para jogar às cartas e botar um copo, e era aí que adquiriam praticamente todos os bens necessários para o consumo quotidiano que não obtinham por produção própria: arroz, açúcar, azeite, sal, massa, café, gás de botija, entre outros. 3 Alguns dos bens que não eram comercializados na taberna, como era o caso do peixe, eram comprados a vendedores ambulantes que, de tempos a tempos, vinham à aldeia. Eram vendedores mais ou menos especializados (ex.: o peixeiro 4) e, por isso, complementares em relação às tabernas. Outros bens que não chegavam a Edroso de Lomba, ou então chegavam, mas a preços pouco atractivos, eram adquiridos fora, mormente nos dois comércios existentes na Veiga do Seixo, uma pequena povoação galega fronteiriça a cerca de 7km. Tratava-se de pequeno trelo (contrabando) destinado ao auto-consumo, realizando-se a pé, por pequenos trilhos, de forma a fugir (nem sempre com sucesso) à apertada fiscalização das então autoridades aduaneiras de Portugal e Espanha, a Guarda-Fiscal e os Carabineiros, respectivamente.
Como recorda um homem de 77 anos, só se viam carreirões [pequenos caminhos] pelos montes. Estava tudo tão puídinho; era só borralho! Era por ali que passávamos para ir à Veiga comprar coisas. Às vezes, os “caralhos” dos Fiscais ficavam-nos com tudo…com coisas que eram para manter os fi lhos… a família!. Além destas compras transfronteiriças, era também frequente as pessoas deslocarem-se a Vinhais, sede de concelho a cerca de 30 km, para acederem a determinados bens de consumo, aproveitando para o efeito quase sempre os dias de feira. Esta prática tornou-se ainda mais frequente com a melhoria dos transportes e a progressiva utilização do automóvel.
O encerramento das tabernas e o crescente envelhecimento da população, a que poderá ser associada uma tendência generalizada de menor disponibilidade para sair da aldeia para fazer compras, criam condições decisivas para uma significativa reconfiguração estrutural dos processos de consumo. As “mercearias” que até então eram sobretudo adquiridas num contexto marcadamente institucional(izado) e de grande convergência social, a taberna, passam agora a ser adquiridas ao vendedor ambulante, mesmo ao lado da porta de casa, em plena rua. Na actualidade, por semana, Edroso de Lomba recebe de forma regular a visita de 13 comerciantes, mais um que se desloca à aldeia aproximadamente de 15 em 15 dias. São quase todos oriundos dos concelhos de Mirandela, Vinhais, Chaves ou então de pequenas localidades galegas próximas da fronteira, como é o caso de Riós, Pereiro e Veiga do Seixo.
...A dimensão social do consumo em Edroso de Lomba torna-se particularmente visível nos conjuntos de pessoas que se vão formando à medida que o vendedor, na sua carrinha, percorre a aldeia, seguindo um percurso mais ou menos padronizado, que já quase todos conhecem, e parando sobretudo nos principais espaços públicos (largos) de confluência da comunidade: Campo, Vale de Castanheira, Portela, Bárrio e Conselho. No seio destes pequenos grupos estruturados em redor do comerciante discutem-se não só questões relacionadas com as compras (ex.: qualidade dos produtos e preços), como também vários outros assuntos pessoais e aspectos da vida quotidiana da comunidade, ou de outras latitudes. É também bastante frequente discutirem-se as novidades trazidas pelos próprios comerciantes, muito em particular pelos transfronteiriços. Com efeito, os que vêm da Galiza costumam transmitir informações sobre acontecimentos da respectiva região e país, sobretudo aquelas que mais directamente se relacionam com Portugal. As conversas, por vezes, são de tal modo envolventes que, não raro, as mulheres que já fizeram as suas compras permanecem no local a falar com as que ainda estão à espera de ser atendidas ou com um ou outro homem que veio a acompanhar a sua esposa. Nalguns casos, o comerciante vai-se embora e o grupo ainda se mantém por mais algum tempo a dialogar. Este é, por tanto, um contexto de consumo de considerável capitalização social, marcado por uma expressiva sociabilidade feminina."
3 As compras ficavam quase sempre a cargo das mulheres. Quando por qualquer motivo não podiam deslocar-se à taberna, geralmente mandavam um filho ainda pequeno fazer o recado. Os homens, por seu lado, frequentavam a taberna sobretudo como espaço de lazer, um espaço caracterizado por um ambiente de forte homossociabilidade pouco receptivo à presença feminina.
4 Ainda hoje as pessoas mais idosas têm memória do peixeiro que trazia o peixe (sobretudo sardinhas) coberto com sal, acondicionado em caixotes de madeira inseridos em alforges transportados por burros. Por volta da década de 60, o peixe começou a ser transportado em pequenas camionetas e a ser preservado mediante o recurso ao gelo. Mais recentemente, o carro do peixe, como é conhecido na aldeia, passou a dispor de uma câmara frigorífica para assegurar a conservação do pescado.
E por fim, em tempos de crise não posso deixar de publicar um pouco mais do texto:
" ... além dos factores de natureza mais económica, a grande importância que, culturalmente, ainda é atribuída à poupança, à não ostentação e à moderação/sustentabilidade do nível de vida; valores dos quais decorre uma forte resistência ideológica à solicitação de crédito e às compras a prestações: Eu nunca gostei de ficar a dever, nem aos bancos, nem a ninguém. Sempre gostei de dormir descansado e de não ter de ficar a dever nada a ninguém! Uma pessoa só deve ter aquilo que pode comprar! (homem, 72 anos). É até bastante comum a expressão quem não tem dinheiro, não tem vícios, que funciona para os actores sociais como mais um sinalizador valorativo da importância de adoptarem padrões de consumo e um nível de vida condizentes com as suas reais possibilidades.
A aversão social ao endividamento e o manifesto apreço pela poupança e pela sobriedade no consumo parecem representar uma espécie de ethos normativo da comunidade, para o qual terão contribuído
experiências de um passado não muito distante de manifesta escassez e privação..."
Agradecimento ao autor pelo envio do estudo.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Em Trás-os-Montes o Carnaval com caretos e tropelias
![]() |
| careto de podence |
O carnaval é sinônimo de festas, divertimentos públicos, bailes de máscaras e manifestações folclóricas. Os mais famosos carnavais são: os de Paris, Veneza, Munique e Roma, seguidos de Nápoles, Florença e Nice e claro Rio de Janeiro.
A história do Carnaval começa no princípio da nossa civilização, na origem dos rituais, nas celebrações da fertilidade e da colheita nas primeiras lavouras, às margens do Nilo, há seis mil anos atrás. Os primeiros agricultores exerciam a capacidade humana, que já nas cavernas se distinguia em volta da fogueira, da dança, da música, da celebração…
Se tem historias engraçadas sobre as velhas tradições de carnaval na aldeia, participe.
http://videos.sapo.pt/BgQZ9akS8S5QZaq5QNfI
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Feira do Fumeiro 2012
Já são conhecidos os vencedores , parabéns à aldeia vizinha da Gestosa.
PREMIOS MELHOR FUMEIRO 2012
1º Irene Pires – Gestosa
2º Adelaide Borges – Penso
3º Idalina Afonso – Cabeça de Igreja
4º Henrique Miranda – Salgueiros
5º Maria Ivone – Vilar de Ossos
6º Ermelinda Martins – Penso
7º Nair Gonçalves – Nunes
8º Ana Maria Jorge – Ousilhão
9º Armelina Martins – Penso
10º Filomena Chorence – Edrosa
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Unidade Móvel de Saúde
Com atraso na publicação, informo que:
Depois de muitas incertezas, fruto do aperto financeiro, a unidade móvel de saúde regressa a Edroso na próxima 4feira, dia 18 de Janeiro, à tarde (não nos foi confirmada a hora exacta). O atendimento será realizado na sede da associação. Além dos exames de rotina mais habituais, serão também realizados exames aos diabetes e ao colesterol.
(A Direcção da ASCRAEL solicitou a publicação em 11-01-2012)
Depois de muitas incertezas, fruto do aperto financeiro, a unidade móvel de saúde regressa a Edroso na próxima 4feira, dia 18 de Janeiro, à tarde (não nos foi confirmada a hora exacta). O atendimento será realizado na sede da associação. Além dos exames de rotina mais habituais, serão também realizados exames aos diabetes e ao colesterol.
(A Direcção da ASCRAEL solicitou a publicação em 11-01-2012)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Por terras de Lomba - Dezembro 2011
Vistas de Edroso e aldeias vizinhas.
Este ano a visita a Edroso foi presenteada com dias de sol e céu limpo, embora com muita geada. Apesar das manhãs e fins de tarde frios, deu para fazer alguns passeios pelos arredores da aldeia e tirar algumas fotografias.
Tinhamos planeado ir até Ázibeiros, mas acabamos por chegar só ao meio da Ladeirinha, e perder o olhar pelas vinhas desaparecidas do Picotelo e das Cantarinhas.
Desfrutem!
Este ano a visita a Edroso foi presenteada com dias de sol e céu limpo, embora com muita geada. Apesar das manhãs e fins de tarde frios, deu para fazer alguns passeios pelos arredores da aldeia e tirar algumas fotografias.
Tinhamos planeado ir até Ázibeiros, mas acabamos por chegar só ao meio da Ladeirinha, e perder o olhar pelas vinhas desaparecidas do Picotelo e das Cantarinhas.
Desfrutem!
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Feliz Natal e Próspero Ano Novo
A todos os que nos visitam, aos amigos e familiares, aos mais e menos conhecidos, a todos os que partilham o amor pela nossa terra e região, desejamos um Santo e Feliz Natal.
Boas Festas!
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